Vinho e saúde

(0)
Não informado
Não informado
Não informado

Ingredientes

 

Modo de preparo


Apesar de não ser uma recomendação unânime no meio, os benefícios gerados pela ingestão de vinho de forma moderada e regular são alvo de centenas de pesquisas científicas desenvolvidas pelos profissionais da saúde ao redor do mundo. Prova disso é a programação do 2º Simpósio Internacional Vinho e Saúde, que será realizado nesta semana, na Serra. Médicos e pesquisadores da área vindos da França, Espanha, Itália, Uruguai, Estados Unidos, Chile e do Brasil estarão apresentando os resultados mais recentes de investigações que atestam os resultados positivos desse hábito.

E como não se faz um bom vinho sem uma boa uva, desde segunda, profissionais e pesquisadores do setor vitícola e vinícola participam do 12º Congresso Brasileiro de Viticultura e Enologia, que antecede o simpósio de saúde.

Por agregar maior quantidade de polifenóis (compostos que combatem a ação de radicais livres), os tintos sempre atraíram maior atenção no meio científico. Este ano, porém, nos dois eventos serão apresentados estudos voltados para as propriedades observadas nos vinhos brancos. Uma das novidades é a descoberta de que, apesar de terem menor quantidade desses compostos, a bebida elaborada com as uvas brancas têm ação mais potente. A enóloga, mestre e doutoranda em Biotecnologia Cláudia Stefenon, defende que a quantidade não é decisiva.

_ Mais importante que a concentração de polifenóis é o efeito sinérgico entre eles. Pesquisas mostram que mesmo em quantidade menor, os efeitos benéficos são similares (entre tintos e brancos) e a concentração não faz tanta diferença como se imaginava _ aponta Cláudia.

A especialista explica que, constatada essa realidade, há alguns anos passou-se a analisar melhor os brancos e espumantes. Os americanos, franceses, espanhóis e brasileiros são os que estão mais à frente desses estudos. Entre as descobertas está a de que determinados compostos presentes mais nos tintos tem atuação mais favorável contra algumas doenças, como as cardiopatias e as neurodegenerativas. Da mesma forma, compostos dos brancos têm resultados melhores em outras patologias, como as pulmonares, renais e no controle da pressão arterial.

Por estar na coordenação do simpósio, Cláudia não participará como palestrante, mas destaca que entre os trabalhos a serem apresentados com dados recentes sobre o tema está o doutor Ramón Restruch, da Universidade de Barcelona, que falará dos benefícios para a saúde com a ingestão de espumantes.

_ Na verdade isso comprova que, independente do tipo e de onde o vinho é produzido, ele traz benefício para a saúde desde que consumido de forma correta, pois todas as uvas possuem os mesmos polifenóis _ resume a especialista.


importante é o contexto

O vinho, por si só, não traz benefícios para a saúde. Prova disso é que ainda não existem comprimidos da bebida nas farmácias. Dois dos médicos que estarão palestrando em Bento Gonçalves esta semana fazem questão de ressaltar que o que proporciona resultados positivos para as pessoas é a adoção de um estilo de vida saudável, no qual o consumo de vinho tem papel importante desde que consumido regularmente e de forma moderada.

_ Tem muita gente tomando vinho como remédio e não como algo prazeroso e saudável. É triste e até perigoso agir dessa forma. Não adianta tomar vinho e fumar, ser sedentário. Isso não vai impedir da pessoa ter um infarto _ afirma o médico e pesquisador de neuroanatomia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Julio Anselmo de Sousa Neto.

O especialista mineiro trará a Serra uma revisão da literatura médica publicada entre 2005 e 2008 sobre os efeitos do vinho na prevenção e combate às doenças de Alzheimer e Parkinson. Ele informa que pesquisas epidemiológicos mostram que sua ingestão inibe ou até mesmo impede a ação de várias substâncias que provocam a degeneração e morte de neurônios.

Já o especialista em clínica média, Jairo Monson de Souza Filho, de Garibaldi, fará a Conferência Master de encerramento do Simpósio. Ele explica que a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, analisou mais de 100 mil pessoas nas últimas décadas e constatou cinco itens que favorecem a qualidade de vida: não ser obeso, ter uma dieta rica em fibras, gorduras insaturadas e polinsaturadas, fazer atividade física regular, não fumar e ingerir até dois copos de bebida alcoólica por dia. Se essa bebida for o vinho, os efeitos são melhores ainda. Esse grupo apresentou 90% menos diabetes, 87% menos infartos e 85% menos derrame cerebral e Monson afirma que o consumo de vinho têm participação importante nesses resultados.

_ O vinho não é um remédio, nem vacina. É parte de um estilo de vida. Ele serve para dar prazer e, por isso, tanto faz se é branco ou tinto, espumante ou tranqüilo. Sempre se deve escolher aquele que traga bons momentos _ ensina o experiente médico garibaldense.



O branco "turbinado"

Dentro do conceito dos "alimentos funcionais", que proporcionam benefícios à saúde, os vinhos tintos têm grande vantagem na preferência desses consumidores por apresentarem maior concentração de polifenóis. Por conseqüência, a produção das variedades de uva e de vinhos desse tipo são muito mais significativos e vem tirando espaço dos brancos no mercado.

_ A proporção de venda é de um branco para nove tintos. Em se tratando de vinhos tranqüilos (não espumantes), o apelo à saúde tem pesado na decisão de compra _ observa o pesquisador de enologia da Embrapa Uva e Vinho, Mauro Celso Zanus.

Quatro anos atrás, ao constatar essa realidade, o especialista teve a idéia de então "turbinar" o vinho branco com os compostos benéficos à saúde oferecidos pelas uvas. A Embrapa desenvolveu uma tecnologia que permitiu a elaboração de um vinho branco com quatro vezes mais antioxidantes e maior quantidade de resveratrol, quercitina e flavonóides. O novo método é resultado de um "pacote de tecnologias" que envolve a utilização de uma uva já desenvolvida pela instituição, uma levedura utilizada para sua fermentação e de um novo protocolo de vinificação (espécie de receita para produção de vinho).

Zanus será um dos palestrantes do Congresso Brasileiro de Viticultura e Enologia, onde falará sobre a possibilidade de aumento do potencial antioxidante dos vinhos brancos, que este ano se materializou no Acquasantiera, safra 2008, elaborado pela Cooperativa Vinícola Garibaldi. A empresa, parceira do projeto, detém a tecnologia pelos próximos três anos.

Entre as informações disponibilizadas sobre o vinho está a de que ele é elaborado com a uva BRS Lorena. A variedade desenvolvida pela Embrapa é capaz de atingir uma boa maturação com elevados níveis de açúcar na Serra Gaúcha, apresentando fácil manejo e boa produtividade. Ela resulta em um vinho de aroma intenso e sabor semelhante ao das uvas moscatel. Já a levedura, a 1 vvt, também fruto de pesquisas da entidade, produz mais álcool durante a fermentação, acelerando a extração de vários compostos, entre eles os polifenóis. O grande segredo da tecnologia, entretanto, é o protocolo de vinificação, onde estão determinados o tempo certo de maceração (permanência do líquido extraído da polpa em contato com as cascas e sementes da uva) e as condições de fermentação da bebida.

_ Tivemos todo um cuidado para evitar gostos amargos e obtivemos um produto comercial, com um paladar agradável, um pouco mais intenso que os tradicionais. Hoje a tecnologia é um pacote fechado, de propriedade da Embrapa _ destaca Zanus.


O PARADOXO FRANCÊS

Quando comparados com outras populações do mesmo nível socioeconômico, os franceses são considerados mais sedentários, fumam mais e comem mais gorduras saturadas. Basta observar que os queijos, patês e mantegas são ingredientes usuais na culinária do país. No entanto, dados comprovam que eles possuem a metade dos problemas cardiocirculatórios. Os franceses são o povo que mais bebe vinho no mundo. Em 1994, a média nacional era de 62,8 litros per capita anuais. Desde então, o consumo vem diminuindo. Em 2004, ficou em 54,8 litros.

A divulgação da constatação foi feita pelo médico Serge Renaud, inicialmente nos Estados Unidos, no programa 60 minutes da CBS, em 1991. No ano seguinte, foi publicado na revista científica The Lancet. Ele afirmou que a ingestão moderada de bebidas alcóolicas, sobretudo de vinho, reduzia o risco de morbimortalidade cardiovascular entre 40% e 60%. Desde então, a comunidade científica passou a aprofundar estudos sobre o assunto.



OS POLIFENÓIS

- A baixa dosagem de álcool, combinada aos polifenóis, é apontada como os principais responsáveis pelos benefícios do vinho para a saúde.

- Os polifenóis são compostos produzidos pelos vegetais e são encontrados nas cascas e sementes de frutos e nas folhas. Existem mais de 200 diferentes tipos, o mais conhecido é o reverastrol.

- Nas plantas cabe a eles protegê-las dos ataques físicos como a radiação ultravioleta do sol e dos ataques biológicos, como dos fungos, vírus e bactérias.

- Por sua função, os polifenóis têm ação antibiótica e potente efeito antioxidante

- Como os vinhos tintos são fermentados com a casca e as sementes, eles têm cerca de 10 vezes mais polifenóis que os brancos.

- O álcool é o melhor solvente (que faz a extração) dos polifenóis das cascas e sementes da uva e também favorece sua absorção pelo organismo humano. Por isso, parte dos benefícios proporcionados pelo vinho não são oferecidos pelo suco de uva.


Contra radicais livres

- Os polifenóis têm ação antioxidante, ou seja, neutralizam os radicais livres. Dessa forma, previnem uma série de doenças relacionadas à ação desses compostos como reumatismo, câncer, arterosclerose, doenças cardíacas, catarata, entre outras.



Coração

- Inúmeros estudos nessa área apontam que a ingestão moderada de vinho diminui a ocorrência de doenças cardíacas e circulatórias entre 40% e 60%.

- Aumenta os níveis de HDL (o chamado bom colesterol), e diminui os de LDL (mau colesterol).

- Previne a formação de coágulos, principal causa de obstrução de vasos sangüíneos, e que causam o infarto, derrame cerebral e gangrenas.

- Aumenta a resistência e elasticidade da parede vascular.

- Dilata os vasos sangüíneos diminuindo a resistência ao trabalho do coração.



Acidente Vascular Cerebral (AVC)

- Pessoas que têm o hábito de beber vinho de forma regular e moderada possuem de 40% a 60% menos riscos de desenvolver o AVC isquêmico, que é resultante da obstrução de vasos provocando a redução do fluxo de sangue no tecido cerebral.

- Por outro lado, o consumo abusivo, mas de cinco copos por dia, aumenta o risco de AVC hemorrágico, provocado pelo rompimento de vasos e vazamento de sangue no sistema nervoso.



Pressão arterial

- É bastante controverso o efeito do vinho nesse caso. Mas não há dúvidas que o consumo excessivo de álcool, mais de cinco copos por dia, por exemplo, aumentam a pressão arterial.

- Há quem defenda que o consumo em baixas doses, até três copos por dia, por exemplo, baixem a pressão arterial, tanto a sistólica (máxima) como a diastólica (mínima).



Câncer

- As pessoas que têm o hábito de consumo regular e moderado de vinho têm 20% menos chance de desenvolver câncer de qualquer tipo. Essa proteção se deve aos polifenóis que agem bloqueando tanto o início como o crescimento e disseminação da doença.

- Alguns cânceres têm relação direta com o consumo de bebidas alcoólicas, como a cerveja e destilados em altas doses. Entre eles estão o de boca, pulmão, próstata, mama e intestino.

- Nas mulheres, o vinho reduz em 50% as chances de desenvolvimento de câncer de ovário



Envelhecimento

- Como o envelhecimento das células, dos tecidos e do organismo como um todo é uma ação dos radicais livres, e os vinhos tem uma potente ação antioxidante, quem consome vinho junto às refeições, de forma moderada e regular, morre mais tarde e tem melhor qualidade de vinho